O oratório da avó Maria, fazia o nosso encanto e merecia o nosso temor.
Era enorme, com o interior forrado com um tecido adamascado e o exterior de madeira negra com um grande e trabalhado florão no alto. Tinha uma porta de vidro, com pinturas douradas a formarem uma moldura e na fechadura uma imponente chave que a avó ornamentara com fitas de seda vermelha.
Era enorme, com o interior forrado com um tecido adamascado e o exterior de madeira negra com um grande e trabalhado florão no alto. Tinha uma porta de vidro, com pinturas douradas a formarem uma moldura e na fechadura uma imponente chave que a avó ornamentara com fitas de seda vermelha.
Eu sei que naquele tempo as máquinas fotográficas eram para os ricos,para os profissionais e talvez para os excêntricos. Mas foi uma pena tal peça não ter sido fotografado.
Além dum crucifixo onde a imagem de Cristo padecia, havia santos e santas, jarras com flores de papel e uma lamparina de azeite que estava sempre acesa. Mudar o pavio à lamparina eram momentos de grande emoção para mim e para a Fernanda, mãe e avó de muitos de vós,
A avó nunca se deitava nem levantava, sem se ajoelhar em frente do oratório e fazer as suas longas orações.E para nós, era um costume que adorávamos cumprir quando estávamos de férias em S.Cristovão.
Mas o Oratório tem uma História, que só mais tarde viemos a compreender.
Embora não fosse homem de missas e igrejas, o avô Ferreira não se opunha à crença e práticas religiosas da avó. Recebia até A Cruz pela Páscoa,e entendia-se amigavelmente com o prior.Mas…
Enquanto viveram em Lisboa, mesmo ao lado da Igreja de S, Cristóvão e o avô partia todos os dias bem cedo para o seu trabalho na alfândega, a avó Maria ia à igreja quantas vezes queria e não perdia a missa do domingo. Regressados à aldeia, quando o avô Ferreira se reformou por doença, não se mostrou tão tolerante às idas da avó à missa de domingo e muito menos às idas à igreja.Mas como era homem inteligente, não se opôs abertamente. Mandou fazer um magnífico oratório, permitiu que a Avó Maria lá colocasse quantos santas e santos desejasse e depois deve ter-lhe dito:
: Deus está em todo o lado, Na Igreja ou aqui, a missa pode ser rezada. E Deus, ficará muito mais satisfeito que tu cumpras o teu dever para comigo que preciso dos teus cuidados a toda a hora do que vás à igreja.Não duvido que até tivesse contribuído com avultado donativo e que o padre da freguesia tivesse vindo benzê-lo.Como disse,o avô Ferreira era um homem bastante psicólogo,e sabia muito bem a melhor maneura de levar aàgua ao seu moínho
A partir da chegada do Oratório,as visitas da avó à Igreja passaram a ser muito raras e só quando a solenidade do facto o justificava.Uma delas,segundo contava a avó, era o dia em que todos os anos era rezada uma missa por alma dos respectivos pais.E de tal maneira ficou condicionada ao desejo do avô, que, já depois de viúva e a dois passos da igreja, onde ia todos os dias, continuava a dizer a sua missa caseira, com os mesmos gestos que o sacerdote na igreja
Como é interessante lermos estas histórias antigas! Que pena não termos fotografias desse Oratório. Será que ninguem tem?
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