O tio António e o tio José são os membros mais lendários da família Ferreira. Mas como vamos falar do tio António, deixo a lenda do Tio José para outra ocasião. As minhas fontes de informação foram três: a avó Maria e a tia Gracinda,que traçaram do enteado e irmão um perfil muito revelador e a” Habilitação de Herdeiros”para partilhas do Avô Ferreira,que me forneceu pequenos pormenores, como datas e o local das 2 casas onde o Avô Ferreira habitou em Lisboa e onde nasceram os filhos.O tio António, tal como os irmão Gracinda e José,nasceu em Lisboa, na Rua dos Mouros, nº 51,freguesia de Nossa Senhora da Encarnação, em 1884 e faleceu, também em Lisboa, em 1913,na rua de S.Cristovão nº 25,Sendo um filho, enteado e irmão muito estimado, quase venerado, é um grande desconhecido para as gerações que vieram depois. No entanto ele foi a pessoa, de quem a avó Maria falava com mais emoção quando recordava acontecimentos do passado
Quando .a mãe morreu, ele tinha dezasseis anos e começara a trabalhar como amanuense numa repartição, dizia a Avó; que trabalhava num cartório afirmava a Tia Gracinda.Inclino-me mais para o cartório,pois tambem afirmavam que era uma pessoa culta,embora autodidata.
Até o pai voltar a casar (o que não demorou muito, apenas oito meses) continuou a viver na rua de S.Cristovão com os irmãos.Mas uns meses depois do casamento , alugou um quarto num prédio onde vivia um amigo, de quem ainda viremos a falar, quando contar a história da tia Gracinda.
Quando a avó Maria e a tia Gracinda falavam desta deliberação do enteado e irmão, eu quase não acreditava que um rapaz de 16 anos, decidisse assim a sua vida, ou fosse suficientemente independente para o fazer. Mas os tempos eram outros e as crianças aprendiam a ser homens e mulheres muito cedo. O meu pai e os meus tios, vossos pais, e avós, com 17 /20 anos, não só eram materialmente independentes como estavam casados e responsáveis pelas famílias. Voltemos ao tio António
Segundo o testemunho da avó, ele passou de rapaz" certinho" como ela dizia, a homem ponderado, respeitado no emprego, estimados entre os amigos, Parece que tinha a FAMÍLIA em grande conta, pois ia jantar ( o jantar nessa altura era ao meio dia) a S.Cristovão todos os domingos, levando sempre ao pai, uma garrafa de bom vinho. Nessas tardes, pai e filho tinham longas conversas mas ele guardava sempre um pouco de tempo para os irmãos, mesmo para o mais novo, o meu pai, que teria por essa altura 4/5 anos. Além disso levava-lhes rebuçados. acrescentava a avó, quase enternecida.
A tia Gracinda traçava outro perfil do irmão. Dizia que era um “dândi”, um homem de bom gosto, muito educado, cultivando-se a ele próprio, frequentador de bibliotecas, do passeio público, e segundo a irmã, sempre elegantemente vestido, muito bonito com o seu belo bigode.
Tinha 29 anos quando um tumor no cérebro o vitimou em poucos meses.Nessa altura regressou a casa do pai, que não poupou dinheiro para o salvar. Morreu nos braços da avó e da tia Gracinda e a sua morte foi um drama para a família, mas principalmente para o avô Ferreira que apesar do seu ar seco, distante, muito à Ferreira, adorava aquele filho, com quem conversava longamente sempre que estavam juntos, que fazia o seu orgulho pela escolha certa da sua vida, pelo respeito que ele merecia a todos os que o conheciam
Seriam as recordações da avó Maria e da Tia Gracinda sobre o nosso tio mais velho, correctas, ou eram alimentadas pela amizade e a imaginação de ambas? Pode ser que o tio António não fosse o Homem perfeito que ambas descreviam; mas que era um belo e elegante personagem do século passado, era com certeza, como testemunhava o retrato que a tia Gracinda possuía. Além disso, um homem que mereceu tais louvores de duas mulheres era de certeza um homem bom
Tenho muita pena desta minha veneta de investigar profundamente a família, não tenha começado mais cedo. Teria conversado com o Tio Henrique que, com 12 anos, decerto recordava bem o irmão, principalmente a sua morte, que tendo sido um drama para a família, muito mais deve ter sido para uma criança de 12 anos;com o Tio Zé, que embora muito ausente, de alguma coisa deveria lembrar-se;Até com o tio Luis,tão pronto como a mâe a recordar e a contar, Apesar de ter nascido 3 meses depois da sua morte, decerto durante infância ouviu falar dele
Era jovem e tonta demais para compreender como é importante saber quem somos, deixar testemunho de quem foram, como agiram aqueles que nos precederam. Sem isso, sem deixar alguma coisa de sólido sobre o passado, a nossa permanência na terra fica um pouco sem sentido.