A tia Gracinda era a 2ª filha do Avô Ferreira e de Guilhermina das Dores, sua 1ª mulher. Bairro Alto, Lisboa. Quando a mãe faleceu em Fevereiro de 1900 tinha ela 12 anos. Nunca falou do que sentira quando o pai voltou a casar sete meses depois. Devia conhecer muito bem a Avó Maria, porque contava que, apesar de morarem em Lisboa iam algumas vezes à terra, principalmente pelo” Círio” grande festividade a que nenhum filho da terra faltava.Provávelmente as famílias até eram intimas, porque o avô Ferreira era padrinho dum irmão da Avó. Mais tarde, quando eu convivi com as duas, a atitude entre ambas sempre me pareceu mais formal que amistosa.
Casou cedo, com dezassete anos, com um amigo do irmão António, Abilio Morais que trabalhava com um tio, dono duma loja de ferragens na Rua da Alfandega e foram morar para Sapadores, à Graça. Tanto a Tia Gracinda como a Avó Maria contavam uma história curiosa (e que julgo verdadeira porque ambas a contavam apenas com ligeiras diferenças de pormenores) sobre este Abílio ser um homem de sorte e que a fortuna o favoreceu de várias maneiras. Quando o tio morreu, sendo ele único parente, herdou o estabelecimento e tudo quanto o tio possuía No estabelecimento, que já era um dos melhores de Lisboa, havia um cofre e dentro do cofre, além de libras em ouro, havia uma cautela da lotaria. Parece que com o enterro e as formalidades legais o herdeiro não ligou muito à cautela, até que o cauteleiro, deixando passar uns dias do luto, apareceu dando-lhe a feliz nova que a cautela (em cujo numero o tio jogava há anos) tinha saído premiada com o prémio principal.Com a nova fortuna, não só ampliou os negócios, como a Família Morais ganhou um novo Estatuto Social. Comprou um luxuoso palacete em Sintra (que ainda hoje existe embora em lamentável estado de conservação) empregou o pessoal necessário para as lides da casa, cozinheira e”criada de fora” e jardineiro, comprou automóvel e como não sabia conduzir, contratou o “Luís Preto” com táxi na praça de Sintra para o conduzir quando a família necessitasse dos seus serviços.
Se os tios Morais começaram bem, ele comerciante próspero e considerado no meio, ela administrando o lar com mestria e opulência, ambos revendo-se no único filho que crescia como um dos melhores partidos de Sintra acabou mal, porque num desses caprichos da tal Sorte, a Fortuna que tanto lhe dera, foi também a causa da infelicidade e destruição da família.O casamento do filho com uma neta das” Sapa” a melhor fábrica de queijadas, de Cintra , foi acontecimento que deu brado na vila e redondezas. Primeiro porque os pais dos nubentes, uns eram populares, outros abastados. Segundo, pela pompa com que foi celebrado. Os meus padrinhos não se pouparam a despesas, não tanto por ostentação, mas pelo muito amor que tinham aquele único filho e desejarem o melhor para ele.A confecção do enxoval do noivo, levou perto de dois meses a preparar, com duas costureiras em casa sob a chefia da minha mãe e da tia Gracinda. Poucas raparigas, mesmo naquela altura levavam bragal tão completo. Depois o casamento em si:Igreja engalanada por florista contratado, passadeira dos carros até ao altar,órgão acompanhando toda a cerimónia”,damas d’honner” e convidados vestidos a rigor, o povo embasbacado vendo chegar os rolls royce da” Companhia Palhinhas”, contratados para levarem os convidados de casa até à igreja e desta ao local do almoço que se estendeu pela tarde, até que os noivos por entre nuvens de arroz partiram para o Buçaco, conduzidos pelo Luís Preto que ficou ao serviço do casal durante a lua de mel.
Casou cedo, com dezassete anos, com um amigo do irmão António, Abilio Morais que trabalhava com um tio, dono duma loja de ferragens na Rua da Alfandega e foram morar para Sapadores, à Graça. Tanto a Tia Gracinda como a Avó Maria contavam uma história curiosa (e que julgo verdadeira porque ambas a contavam apenas com ligeiras diferenças de pormenores) sobre este Abílio ser um homem de sorte e que a fortuna o favoreceu de várias maneiras. Quando o tio morreu, sendo ele único parente, herdou o estabelecimento e tudo quanto o tio possuía No estabelecimento, que já era um dos melhores de Lisboa, havia um cofre e dentro do cofre, além de libras em ouro, havia uma cautela da lotaria. Parece que com o enterro e as formalidades legais o herdeiro não ligou muito à cautela, até que o cauteleiro, deixando passar uns dias do luto, apareceu dando-lhe a feliz nova que a cautela (em cujo numero o tio jogava há anos) tinha saído premiada com o prémio principal.Com a nova fortuna, não só ampliou os negócios, como a Família Morais ganhou um novo Estatuto Social. Comprou um luxuoso palacete em Sintra (que ainda hoje existe embora em lamentável estado de conservação) empregou o pessoal necessário para as lides da casa, cozinheira e”criada de fora” e jardineiro, comprou automóvel e como não sabia conduzir, contratou o “Luís Preto” com táxi na praça de Sintra para o conduzir quando a família necessitasse dos seus serviços.
Se os tios Morais começaram bem, ele comerciante próspero e considerado no meio, ela administrando o lar com mestria e opulência, ambos revendo-se no único filho que crescia como um dos melhores partidos de Sintra acabou mal, porque num desses caprichos da tal Sorte, a Fortuna que tanto lhe dera, foi também a causa da infelicidade e destruição da família.O casamento do filho com uma neta das” Sapa” a melhor fábrica de queijadas, de Cintra , foi acontecimento que deu brado na vila e redondezas. Primeiro porque os pais dos nubentes, uns eram populares, outros abastados. Segundo, pela pompa com que foi celebrado. Os meus padrinhos não se pouparam a despesas, não tanto por ostentação, mas pelo muito amor que tinham aquele único filho e desejarem o melhor para ele.A confecção do enxoval do noivo, levou perto de dois meses a preparar, com duas costureiras em casa sob a chefia da minha mãe e da tia Gracinda. Poucas raparigas, mesmo naquela altura levavam bragal tão completo. Depois o casamento em si:Igreja engalanada por florista contratado, passadeira dos carros até ao altar,órgão acompanhando toda a cerimónia”,damas d’honner” e convidados vestidos a rigor, o povo embasbacado vendo chegar os rolls royce da” Companhia Palhinhas”, contratados para levarem os convidados de casa até à igreja e desta ao local do almoço que se estendeu pela tarde, até que os noivos por entre nuvens de arroz partiram para o Buçaco, conduzidos pelo Luís Preto que ficou ao serviço do casal durante a lua de mel.
A tudo isto, e ao alvoroço dos dois meses antecedentes, com conversas sobre o luxo do mobiliário do jovem casal, à marcação do hotel no Buçaco, para eles e para o motorista, assistia uma das criadas dos meus padrinhos, rapariga sonsa e resmungona, que a minha madrinha logo que o casamento terminasse tencionava despedir. Não foi necessário fazê-lo, porque ela própria se despediu, passando da situação de doméstica ás ordens, para dar ordena ao ex-patrão, de quem entretanto se tornara amante. Atarefadas com as costuras e modistas, nem a minha madrinha nem a minha mãe, que tinha fama de “farejar” estes assuntos ao longe, deram pelo que eslava a acontecer. Instalada num belo andar na Rua da Junqueira, depressa aprendeu como se explora um homem de cinquenta anos, ingénuo e carente e a sua meta seguinte, foi ocupar o lugar da ex-patroa.Estou convencida que o meu padrinho jamais pensou em trocar a respeitável situação de homem de bons costumes, pai de família exemplar para viver junto duma mulher muito pouco decente e muito menos casar com ela. Mas para a manter contente e preservar o romance, disse-lhe que, quando a minha madrinha soubesse do caso sairia de casa para viver junto dela Em má hora o disse, porque, como a tia Gracinda nunca mais se inteirava do caso (que o marido aliás tinha o cuidado de ocultar, mantendo os mesmos horários e hábitos) e a vida do casal decorria como sempre, deslavada e sem graça, vazia de arroubos apaixonados, mas tranquila, resolveu dar uma ajuda ao destino. Numa tarde em que como o costume ele a visitava, deu-lhe um chá de dormideiras que o deixou a dormir até às quatro da manhã. Quando acordou, estonteado e não compreendendo o que tinha acontecido, verificou que, não só tinha perdido o comboio em que invariavelmente regressava a Sintra, como também o ultimo, e que isso iria motivar-lhe grandes contratempos. Resolveu ir para a loja esperar pelo primeiro comboio.e pensar na desculpa para o caso. Entretanto, em Sintra, era a aflição total. A primeira coisa que lhes ocorreu, foi ter acontecido um acidente. Avisado o meu pai, este foi indagar nos hospitais onde não encontrou rasto do cunhado. Quando o sobrinho chegou conjecturaram os dois sobre o que teria acontecido e chegaram à conclusão que só poderia tratar-se de uma doença súbita. Como não se encontrava em nenhum hospital, deduziram que o caso devia ter acontecido na loja e para lá correram e onde o encontraram, meio estonteado, mas não tanto que não aproveitasse a inquietação do filho e do cunhado, para justificar a ausência, com um súbito desmaio inexplicável. Embora satisfeitos por o encontraram recuperado do " ataque", ambos insistiram em chamar um médico, pois sendo um homem saudável a quem nunca tinham sido conhecidas enfermidades, era estranha e talvez perigosa aquela súbita moléstia. Respondeu que não era necessário, que depois consultaria o seu médico de família, e que naquele momento a única coisa que desejava era ir para casa descansar.
Então, quando o primo Luís das Gaiolinhas, muito feliz por ter recuperado o pai sem danos de maior, telefonava à mãe dizendo-lhe que estava tudo bem e que iam de imediato regressar a casa, deu-se o golpe teatral, com a chegada da "marafona" (como a minha madrinha e a minha mãe passaram a chamar à ex-criada) dizendo-se muito apoquentada pois o "querido Abílio" que sempre lhe telefonava antes de se deitar, naquela noite não o tinha feito, o que a levara a pensar que algum mal tinha acontecido, tanto mais que quando a deixara dissera-se um pouco mal disposto. Segundo o meu pai contava, tinha-se perdido naquela criatura maldosa e astuta, uma grande actriz, pois foi perfeita a maneira como representou o ar de surpresa e confusão, fingindo dar por eles repentinamente. O primo Luís é que não esteve com meias medidas e enquanto o pai, a sério ou fingindo, resvalava para o chão inconsciente, pregou-lhe dois tabefes e pô-la na rua. Tio e sobrinho discutiram então o que haviam de fazer. Na opinião do meu pai, seria melhor confirmar a versão do ataque, terem uma conversa séria com o prevaricador, exigindo-lhe o fim imediato da aventura, para evitar tal desgostos irmã. O filho, intransigente, achava que aquele acto não era de perdoar e não queria ver a mãe mais humilhada do que já fora e mesmo que o caso terminasse, ele achava que a mãe devia saber o marido que tinha. Prevaleceu a opinião do filho e ficou combinado que ele regressaria imediatamente a casa com o pai, enquanto o tio voltava a casa para acertar com a minha mãe a ida de ambos por uns tempos para Sintra, com o fim de acalmar a tempestade que certamente iria levantar-se.Todos conheciam o feitio da minha madrinha e ninguém esperava que ela fosse aceitar os factos com bom cariz. Esperavam que a presença do irmão e da cunhada e a minha, de quem ela gostava ternamente, suavizassem aqueles primeiros tempos. O meu pai viria de comboio para o trabalho, junto com o cunhado e com o sobrinho e regressaria com eles, acalmando os momentos desagradáveis de pai e filho durante as viagens. Parece que durante esses tempos, a minha mãe foi de muito bom conselho e excelente companhia para a cunhada, evitando-lhe tanto quanto podia as investidas que a "marafona", vendo gorados os seus planos matrimoniais passou a transformar num inferno, com cartas, telefonemas e colocando-se em frente do portão da casa. a vida do casal
Infelizmente os conselhos e cuidados da minha mãe não valeram de nada, porque quando soube que a marafona estava grávida, a tia Gracinda passou-se completamente. Exigiu mudar-se para Lisboa, onde passou a controlar a vida do marido, fazendo-lhe telefonemas constantes para a loja.para saber se ele estava lá, indo esperá-lo na altura de ele fechar o estabelecimento Deixou de lhe falar, comunicando com ele através da criada (velha e antipática). E a marafona passou a controlar a dela.apresentando-se com o filho pela mão em todos os lugares que era habitual a ex-patroa frequentar, vestida á ultima moda.incluídas as celebres raposas com cabeça e rabos, que aconchegavam os ombros das damas da altura Então a tia Gracinda que sempre fora uma mulher sensata, passou a gastar rios de dinheiro, em modistas, em sapatos, em peles.Com três casas a sustentar, a do casal, a da marafona e a do filho, com todos eles a gastarem “quanto mais melhor” não há loja de ferragens que aguente. Felizmente para ele, o Tio Abílio morreu antes da ruína total, em 1952, com um cancro no cérebro. Poucos anos depois, suicidou-se o Luís das Gaiolinhas sem ninguém perceber muito bem porquê, e finalmente a tia Gracinda morreu em 1963 com uma trombose

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