Por esta altura, já as minha primas, acompanhadas da Leonor, empregada doméstica e nossa colega na “gala” que realizávamos no Fim do Ano, tinham chegado e a alegria era geral.Dividíamos o tempo em passear na quinta, ir à cidade fazer as nossas compras de pequenas lembranças para oferecermos no Natal, ou ir ter com a Tia Alice ao Hotel Central.
A Tia Alice era muito”liberal”para aqueles tempos de pessoas sisudas e não hesitava
em ir connosco ao Campo da Vinha ver a Feira Semanal, uma feira onde se vendia de tudo, desde mobílias, bois e vacas, cangas, dornas para o vinho, alambiques para fazer aguardente e loiça de barro. Ou, melhor ainda, lavava-nos a lanchar à Benamor.
Uma semana antes do Natal, chegava o tio Humberto, a tia Palmira e a Ana
Maria, também acompanhados pela empregada, GIGI.
Embora os meus tios ficassem alojados no Hotel, a Ana Maria e a Gigi ficavam connosco. E finalmente na ante véspera, chegava o tio Luís e a família que eram igualmente nossos hóspedes.
A casa era tão grande que não havia qualquer problema de alojamento. O “quartel-general” da gente nova , era no 1º andar, para onde eu me mudava, cedendo o meu quarto para a Gigi ficar com a Ana Maria.. Tanto eu como a Chicha ansiávamos por esse momento, pois lá em cima nós e o pessoal doméstico fazíamos grandes farras pela noite dentro (por vezes até à meia noite!!!) que acabavam quase sempre com café com leite ,quente e “moletinhos”uma espécie de pães-de-leite com canela.
Quanto ao trabalho, que também aumentava consideravelmente, não havia problema. A Ana e a Luísa eram ajudadas pela Leonor e pela Gigi, além de que, a Senhora Maria, mulher do caseir, subia à categoria de ajudante de cozinha e a filha, a Rosa, dava uma mão nas arrumações e divertia-se connosco, numa troca de impressões que hoje, acho muito curiosa.
Ela pasmava com o que nós, principalmente a Fernanda, que era “a menina de Lisboa” lhe contávamos. E nós, não pasmávamos menos com as histórias das desfolhadas, com o beijinho obrigatório quando aparecia o milho roxo, ou”milho rei”, das vindimas, onde era preciso levar o merendeiro aos vindimadores, incluindo os “derriços” das moças, os namoricos pelo meio dos milheirais e ficávamos suspensas da narrativa quando ela nos contava que A ou B tinha sido “enganada” Isso queria dizer que alguém tinha ultrapassado os limites das beijocas e ficava com um grande problema às costas. Por aqui se vê, que a juventude de então não era assim tão inocente. Mas das palavras aos factos ia uma grande diferença e nenhuma rapariga queria passar por “oferecida”que era o nome que se dava às atrevidas.
Com tudo isto, o enorme casarão que era até um pouco soturno e onde nós parecíamos passear como almas penadas, naquela altura animava-se como uma Arvore de Natal iluminada ..Havia sempre movimento e vozes alegres de manhã, à tarde e à, noite, movimentos furtivos para arrumar as prendas do Natal, de maneira que a Fernandinha e a Anami não as vissem Mas era ao jantar, quando todos nos reuníamos, incluídos os tios que estavam no Hotel, que o dia nos parecia verdadeiramente maravilhoso
Sem comentários:
Enviar um comentário