NOITE DE S.JOÃO
As noites de S.João recordam-me a infância e a adolescência passadas em Braga, cidade onde o Santo era festejado numa tradição centenária.
Nós, os Lisboetas recém-chegados à cidade, aderimos imediatamente aos usos e costumes: comer o anho assado na véspera de S. João, no Largo da Ponte e no dia 24 ir almoçar a tradicional pescada de Vigo, frita com grelos estrugidos, o ” arroz dos miúdos”, aletria e Pão de Ló na ”casa da aldeia” de algum dos amigos. Regressávamos ao fim da tarde para assistir ao cortejo de Zé Pereiras, que desfilavam na Avenida Central atroando os ares com os seus monumentais bombos.
É verdade que não teria permitido que a tratássemos por tu e certamente não nos sentiríamos à vontade para desfiarmos perante ela as desventuras ou alegrias dos nossos namoros.
Era uma mulher do tempo dela, enraizada na sua aldeia natal e nos seus costumes e que gostava de nós à sua maneira um tanto reservada Mas transformava-se numa pessoa afável quando falava da vida na aldeia, dos seus momentos de confusão, quando foi viver para a casa de S. Cristóvão. A luz eléctrica foi talvez a coisa mais estranha que encontrou. Dizia que ao princípio cada vez que accionava o interruptor de porcelana parecia-lhe realizar um milagre; do medo que sentia quando assomava à varanda e olhava para baixo;do prazer que tinha ao sair com o seu primeiro chapéu.
Faz hoje 56 anos que ela morreu e ainda recordo as suas histórias ingenuamente malandrecas, as suas
Penso que recordá-la e às suas conversas,com tanto carinho e constância é a maior homenagem que posso prestar-lhe.
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