Em 1900, a avó Maria do Rosário, tinha uma vida muito semelhante às outras raparigas da aldeia: cozinhava, amassava, lavava, cosia, e as distracções que tinham estavam ligadas às actividades relacionadas com a igreja e suas festividades. Quando chegava altura ou quando convinha, casavam, sempre com rapazes da terra ou das terras vizinhas, bem conhecidos dos pais e tornavam-se esposas zelosas da paz, ventura e prosperidade do lar, educando os filhos na boa tradição cristã, prontas a obedecer ao marido como tinham obedecido ao pai enquanto solteiras.Era uma vida simples, nem demasiado árdua nem aborrecida, principalmente para quem não conhecia outra.
Decorria a vida da Avó Maria nesta doce quietude, quando foi surpreendida por um pedido de casamento. “Pedido de casamento” é um modo simpático de expor o facto.O avô Joaquim Francisco era amigo da família há longo tempo, respeitado e admirado na aldeia, visita da casa. Tinha enviuvado há pouco tempo e como homem prático que era, compreendera que, com três filhos, dois ainda jovens, uma casa para governar, não seria acertado permanecer viúvo mais do que as conveniências exigiam. E quem melhor para segunda esposa, senão a filha do compadre e amigo, que ele vira transformar-se de criança atinada em rapariga trabalhadeira, conhecida na aldeia, pela sua sensatez.Ele tinha para oferecer respeito, amizade, alguns bens materiais, uma posição invejável comparada com a de outros pretendentes. Havia é verdade, alguns inconvenientes: a diferença de idade e os três filhos. Mas sempre prático, pensou que a diferença de idade, 15 anos, não era assim tão grande e, quanto aos filhos, a futura noiva conhecia-os bem.
O bisavô Faria, não deu logo resposta. Disse que ia falar com a mulher, que ambos falariam com a rapariga para saberem o que ela pensava e que depois lhe diriam alguma coisa.O que pensava a rapariga, não tinha a menor importância. Mas eu, penso que a rapariga estaria de acordo.
Naquele tempo e naquele lugar, onde o dia-a-dia era vivido prosaicamente, sem romance, e o casamento encarado como o destino natural de todas as jovens e que devia ser baseado em respeito mutuo, pouco a pouco transformado em sólida amizade; mau, para qualquer rapariga, era não casar.
Os seus dois irmãos e a irmã estavam casados e apesar de não lhe terem faltado pretendentes, a avó Maria continuava solteira, ajudando a mãe a tomar conta da casa. Mas agora, já com 22 anos, talvez desejasse ter a sua própria casa. Como todas as pessoas da aldeia, devia admirar o nosso avô, que todos consideravam pessoa de respeito e merecimento. Além disso, para a rapariga que, o mais longe que viajara fora a Torres Vedras e muito raramente, a ideia de viver em Lisboa, talvez tenha pesado na decisão.
Passado o tempo razoável, o Bisavô Faria deu resposta positiva e marcou-se a data do casamento.
O noivado foi rápido porque não havia razão para o não ser: o tempo de luto para o viúvo tinha acabado, o enxoval da noiva estava pronto, a casa de Lisboa aguardava a sua nova dona.
Casaram no dia 30 de Setembro de 1900, na Igreja de Nossa Senhora da Luz, nas Carreiras, sem pompa, como era devido ao estado civil do noivo, mas com circunstância, como a noiva merecia. Houve um almoço para parentes e amigos mais chegados, o que quer dizer quase toda a aldeia, mas sem bailarico e as folganças habituais.
Os noivos partiram de comboio para Lisboa, acompanhados pelas crianças (que já não eram assim tão crianças) para passarem a sua primeira noite de casados na Rª de S. Cristóvão, Nº 25, 3º Dtº, casa onde viveram até irem morar definitivamente para o Casal da Cerca.


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